Porto Príncipe, 17 jun 2026 (Lusa) — Numa declaração contundente feita na capital haitiana, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, colocou o Haiti no centro das preocupações globais ao afirmar que o país enfrenta atualmente a pior crise do hemisfério ocidental. À escala planetária, a situação no território caribenho é a terceira mais grave, sendo apenas superada pelos cenários vividos na Palestina e no Sudão.
Durante uma conferência de imprensa integrada na sua visita oficial, Guterres apontou a violência extrema gerada por gangues armados como a raiz de todo o flagelo. Estas organizações criminosas continuam a aterrorizar os cidadãos, forçando a deslocação interna de 1,5 milhões de pessoas e deixando uns impressionantes 6,4 milhões de haitianos dependentes de assistência humanitária. O líder da ONU confessou-se profundamente tocado pelo que testemunhou, sublinhando que a vida quotidiana no país se transformou numa dura "luta pela sobrevivência".
O panorama social descrito pelo secretário-geral é devastador. A crise alimentar afeta cerca de 6 milhões de pessoas, com Guterres a relatar encontros com várias mulheres, homens e crianças cuja subsistência se resume a uma única refeição diária. A par da fome, os dados sobre a violência no primeiro trimestre deste ano revelam números alarmantes, apontando que mais de 20 mulheres e raparigas foram vítimas de agressões todos os dias. Além disso, o recrutamento forçado de menores por parte das redes criminosas triplicou, o que significa que atualmente metade dos membros que integram estes bandos armados são crianças.
Apesar do cenário de urgência, António Guterres lamentou profundamente que o plano de resposta humanitária delineado pela ONU para o Haiti — orçado em 880 milhões de dólares — seja o programa mais desapoiado a nível mundial, tendo arrecadado apenas um quarto da verba necessária. "O Haiti não pede esmola. O Haiti pede que o mundo cumpra a sua palavra", criticou o responsável, atirando que a maior vergonha reside na indiferença global de quem desviou o olhar durante demasiado tempo.
Guterres notou ainda com desagrado a ausência de forças de países desenvolvidos na Força de Supressão de Gangues (GSF), uma missão validada pela ONU com capacidade até 5.500 operacionais. O contingente conta atualmente com militares e polícias vindos de nações em desenvolvimento, como o Chade ou a Jamaica, aguardando-se ainda a chegada de forças do Bangladesh. Para o líder das Nações Unidas, está na hora de o mundo desenvolvido assumir também as suas responsabilidades e começar a participar nestas operações.
Mesmo perante as enormes dificuldades, a visita serviu também para destacar alguns progressos no terreno. O restabelecimento progressivo da autoridade do Estado já permitiu às autoridades locais recuperar o controlo de vários bairros no centro de Porto Príncipe. Outro forte sinal político e institucional foi a recente reunião do Conselho de Ministros no Palácio Nacional, um acontecimento que não se verificava há mais de três anos.