Madrid, 08 jun 2026 (Lusa) — O Papa Leão XIV defendeu esta segunda-feira que o fenómeno migratório global representa um teste ético à comunidade internacional. Num discurso proferido no parlamento de Espanha, o líder da Igreja Católica sublinhou que a deslocação forçada de populações não pode ser encarada como uma mera estatística demográfica, classificando a situação como uma urgência moral e jurídica que exige a cooperação entre Estados.
Perante os deputados espanhóis, o Santo Padre sustentou que a gestão da crise de refugiados e migrantes deve focar-se na salvaguarda da dignidade humana e na resolução das causas estruturais que motivam a partida. De acordo com o Pontífice, as administrações públicas devem empenhar-se na criação de canais de entrada legais e seguros, garantindo processos de integração eficazes, sem descurar o investimento no desenvolvimento local para que os cidadãos tenham condições de segurança e estabilidade para não abandonar os seus países de origem.
A intervenção de Leão XIV surge num momento de forte debate político em Espanha, país que cumpre a primeira visita papal nos últimos 15 anos. A viagem antecede uma deslocação de dois dias ao arquipélago das Canárias, uma das principais rotas de entrada de embarcações precárias provenientes do continente africano.
Embora se tenha dirigido à câmara na qualidade de chefe de Estado do Vaticano, as palavras do Papa tocam diretamente na polarização política espanhola, marcada pelo confronto público entre o partido de extrema-direita Vox e a Conferência Episcopal Espanhola. A liderança dos bispos tem sido criticada pela força política devido ao apoio institucional dado ao acolhimento de migrantes e à recente regularização extraordinária promovida pelo Governo socialista de Pedro Sánchez. A hierarquia da Igreja tinha também contestado as plataformas de governação regional da direita que tentavam impor critérios de "prioridade nacional" no acesso a apoios sociais.
O discurso na sessão plenária do Congresso dos Deputados foi acompanhado pela quase totalidade do hemiciclo, registando-se apenas a ausência de cinco parlamentares de partidos da ala esquerda (Podemos e Bloco Nacionalista Galego). Na reta final da sua alocução, Leão XIV alertou para o perigo crescente das rotas marítimas em direção ao continente europeu, exortando as nações a reforçarem os mecanismos de salvamento e assistência humanitária às vítimas.