Paris, 04 jun 2026 (Lusa) — Marjane Satrapi, uma das vozes mais marcantes da banda desenhada contemporânea e do cinema de animação, faleceu esta quinta-feira na capital francesa, aos 56 anos. A confirmação foi feita pela família através de um comunicado enviado à agência AFP, que associou o seu falecimento ao profundo desgosto vivido pela autora após a perda do marido, Mattias Ripa, em abril de 2025.
Satrapi conquistou projeção global com o lançamento de "Persépolis", uma detalhada saga autobiográfica em banda desenhada. Na obra, traduzida em dezenas de línguas (incluindo o português), a artista ilustrou a sua infância no Irão sob o manto de restrições severas impostas pela revolução islâmica de 1979, culminando na dolorosa decisão dos seus pais em enviá-la para a Europa. Exilada em França desde 1994, obteve a cidadania francesa em 2006.
A aclamação no mundo da nona arte começou no prestigiado Festival de Angoulême, onde foi premiada em 2001 e, mais tarde, voltou a vencer o prémio de Melhor Álbum com "Frango com Ameixas" (2005). Em 2007, a adaptação cinematográfica de "Persépolis", realizada em parceria com Vincent Paronnaud, arrecadou o Prémio do Júri no Festival de Cannes. Na altura, a realizadora dedicou a distinção a todo o povo iraniano.
Ao longo da sua vida, Marjane Satrapi manteve-se na linha da frente da denúncia contra os abusos de poder de Teerão. O seu espírito crítico estendeu-se à própria política externa europeia: em 2025, a autora recusou publicamente receber a Legião de Honra francesa, justificando o gesto como um protesto face àquela que considerava ser uma postura dúbia e hipócrita de Paris perante a nova vaga de repressão e violência exercida pela República Islâmica do Irão.