MENU
Sara Barros Leitão lança em cena monólogo sobre “espetro que teima” em pairar sobre aborto
Atriz e encenadora acusa direita radical de tentar controlar o corpo das mulheres e avisa que o acesso à IVG em Portugal continua a ser uma barreira de classe.
Por Redação
Publicado em 19/07/2026 10:15
Cultura
@Lusa

Lisboa, 19 jul 2026 (Lusa) – A criadora teatral Sara Barros Leitão vai estrear em setembro, na cidade de Braga, a peça a solo “Nós, sozinhas”. O espetáculo coloca o foco sobre a interrupção voluntária da gravidez (IVG), motivado pela perceção de que o direito ao aborto enfrenta constantes ameaças de retrocesso, duas décadas após ter sido legalizado em território nacional.

Em entrevista concedida à agência Lusa, a artista apontou o dedo às forças políticas da ala direita e, em particular, aos quadrantes de extrema-direita. Segundo a encenadora, estas correntes ideológicas elegem sistematicamente os direitos sexuais e reprodutivos como o primeiro alvo de reversão legislativa assim que chegam ao poder, exercendo uma tentativa de domínio sobre a anatomia feminina.

A génese do projeto remonta a recordações de infância da autora, que testemunhou em 2002 o impacto social de um julgamento mediático no concelho da Maia, onde dezenas de mulheres e profissionais de saúde foram sentados no banco dos réus. Para Sara Barros Leitão, esta vivência, cruzada com a pesquisa documental que efetuou em atas da Assembleia da República, solidificou a certeza de que a questão da IVG está intrinsecamente ligada às desigualdades económicas.

"As mulheres com recursos financeiros sempre solucionaram esta questão no estrangeiro. São as cidadãs mais desfavorecidas e, atualmente, as migrantes sem recursos as que mais sofrem com os entraves no Serviço Nacional de Saúde", apontou a encenadora.

A artista denunciou ainda as falhas no sistema público de saúde contemporâneo, sublinhando que cerca de 40% das unidades hospitalares do país integram clínicos que evocam a objeção de consciência. Este cenário, no entender da encenadora, empurra anualmente centenas de cidadãs para clínicas privadas em Espanha devido ao curto prazo legal de dez semanas em vigor no ordenamento jurídico português.

Após a apresentação inicial no Theatro Circo, a produção cénica iniciará um périplo por várias salas de espetáculo do país, estendendo-se até ao ano de 2027.

Comentários