Lisboa, 15 mai 2026 (Lusa) — O lendário pianista e compositor sul-africano Abdullah Ibrahim morreu esta sexta-feira, na Alemanha, aos 91 anos de idade. A notícia foi avançada pela família em comunicado, detalhando que o músico, que contava com uma vasta discografia de mais de 70 álbuns gravados, "faleceu serenamente, rodeado pela família, na sequência de uma doença".
Nascido sob o nome de Adolph Johannes Brand em 1934, Ibrahim iniciou o seu percurso no piano logo aos sete anos, fortemente influenciado pela mãe, que tocava na igreja e fazia o acompanhamento musical de filmes mudos. Com um percurso artístico que se estendeu por mais de 75 anos, o pianista destacou-se no panorama mundial por fundir de forma inovadora o jazz contemporâneo de Nova Iorque com as matrizes e ritmos tradicionais do continente africano.
Forçado a exilar-se devido à opressão do regime do 'apartheid' na África do Sul, o músico radicou-se em Nova Iorque durante mais de três décadas, período no qual estudou na prestigiada Juilliard School e residiu no emblemático Chelsea Hotel. Nos anos 60, a sua música tornou-se uma bandeira de contestação política e de união racial. Mais tarde, em 1974, durante uma viagem ao seu país natal, gravou o tema "Mannenberg", uma obra icónica que passou a ser entoada regularmente como um hino de protesto nas manifestações contra a segregação.
O talento de Abdullah Ibrahim cruzou-se com o do mestre norte-americano Duke Ellington em 1963, quando este o descobriu a tocar num clube em Zurique, na Suíça. Impressionado com a performance, Ellington levou-o de imediato para Paris para realizar uma sessão de gravação que impulsionaria em definitivo a sua carreira internacional.
Anos mais tarde, em 1994, Ibrahim foi convidado a atuar na histórica cerimónia de tomada de posse de Nelson Mandela como o primeiro Presidente negro da África do Sul. Apesar de ter fundado uma escola de jazz no seu país de origem, o compositor manteve sempre uma forte atividade além-fronteiras. Para o corrente ano, o músico tinha ainda agendados três recitais a solo na Alemanha, programados para os meses de julho e outubro.
Em Portugal, a última subida ao palco de Abdullah Ibrahim aconteceu no ano de 2022, num concerto acolhido pelo Theatro Circo, em Braga. O pianista contava também no seu histórico com passagens marcantes pelo Grande Auditório da Culturgest, em Lisboa (em 2011 e 2016), e pelo festival Guimarães Jazz, em 2006.