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Camila Sosa Villada despe a literatura de romantismo e define a escrita como uma criação inútil
Em entrevista à Lusa, a autora argentina recusa a ideia de "escrita terapêutica", assume que os livros lhe trazem crises e defende o poder da arte solitária.
Por Redação
Publicado em 14/06/2026 10:06
Cultura
@Lusa

Lisboa, 14 de junho de 2026 (Lusa) – A escritora argentina Camila Sosa Villada lançou uma reflexão provocatória sobre o mundo das letras ao defender que a literatura "não serve para nada". Em entrevista à agência Lusa, durante a sua passagem por Lisboa para promover o livro "A viagem inútil", editado pela Quetzal, a autora rejeitou de forma categórica a visão utilitária ou terapêutica que frequentemente se associa ao ato de escrever, assumindo o ofício como um gesto sem finalidade prática, mas vital na ligação com o leitor.

A obra, de cariz marcadamente autobiográfico, resgata as origens da autora, a sua infância dolorosa marcada pela pobreza e pelo alcoolismo do pai, bem como a sua vivência enquanto travesti no mundo da prostituição, antes de alcançar o sucesso nos palcos e na literatura. Camila Sosa Villada recusa, no entanto, os clichés de que a escrita funcione como um remédio para curar traumas ou sanar feridas do passado. Para a escritora, tratar os livros como ferramentas de autoconhecimento equivaleria a transformar a literatura num instrumento de domesticação e mercantilização das emoções.

Longe de trazer uma reconciliação emocional, o processo de publicação de "A viagem inútil" chegou a azedar as relações familiares e a desencadear momentos psicologicamente duros. A escritora confessou que o término de uma obra é sempre acompanhado por um luto profundo e por crises severas, muito mais difíceis de gerir do que o próprio processo de escrita. Uma vez editado, a autora prefere ver o livro como um objeto com vida própria, que viaja e se desliga das dores de quem o criou.

Desmistificando também o ambiente idealizado da criação literária, Camila Sosa Villada revelou que prefere trabalhar rodeada de ruído — em aeroportos, transportes públicos ou salas de espera — e sempre acompanhada por música, que vai das "Variações Goldberg" a Billie Holiday, rejeitando o silêncio como algo natural. Influenciada por nomes como Joan Didion e Anne Carson, a escritora encara a literatura como uma arte solitária e propensa ao fracasso, mas dotada de um poder único e universal, capaz de ser exercida por qualquer pessoa munida apenas de um lápis e de um pedaço de papel.

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