Lisboa, 07 jun 2026 (Lusa) — O escritor franco-argelino Kamel Daoud defendeu que a "traição" às convenções e ao pensamento dominante é uma condição fundamental para a conquista da liberdade. Em entrevista à agência Lusa, em Lisboa, o autor refletiu sobre o seu novo ensaio, “Por vezes é preciso trair” (ed. Guerra e Paz), uma obra que nasceu como resposta direta às recorrentes acusações de dissidência de que é alvo no seu país natal.
"É esse o insulto que me chamam muitas vezes: judeu ou traidor", revelou Daoud, explicando que a Argélia vive sob uma "conceção muito fechada do nacionalismo" que criminaliza quem se afasta de uma identidade única. "Tentei responder explicando que não podemos imaginar o futuro se não trairmos o imobilismo. Aos que diziam que eu era um traidor, eu disse-lhes que sim, que traía a imobilidade. É uma necessidade moral e filosófica: não podemos inventar o amanhã se não trairmos o hoje", sublinhou.
O escritor apontou uma contradição estrutural nas sociedades autoritárias, onde persiste o culto do grupo: "Sonhamos com a libertação coletiva, mas rejeitamos a liberdade individual". Segundo o autor, as ditaduras — nomeadamente a argelina — dependem ativamente da criação da figura do "traidor" para consolidar a sua própria ortodoxia e narrativa oficial.
Um dos principais eixos de acusação contra Daoud prende-se com a sua opção literária de escrever em francês, o que o regime argelino rotula como uma cedência ao antigo colonizador. O escritor rejeita essa visão, defendendo a língua como um espaço de afeto e liberdade. "Contra aqueles que imaginam que uma língua serve para se encerrar na glória, oponho as minhas três línguas como outras tantas janelas", afirmou, acrescentando que "um país que fala constantemente do país que o colonizou não é um país independente, é um país dependente".
A par da identidade linguística, a gestão da memória histórica na Argélia é fortemente vigiada. O país instituiu leis que proíbem o debate sobre a Guerra da Independência e a guerra civil fora da narrativa do Estado, sob pena de cinco a dez anos de prisão. Kamel Daoud, que foi recentemente condenado a três anos de pena suspensa devido ao seu romance Houris, lamenta o bloqueio destes traumas. "Agora não posso escrever um romance sobre a guerra civil nem sobre a descolonização. Após dez anos de guerra, só há um culpado: é um romance. É espantoso".
Alvo de uma fatwa (decreto religioso de condenação), de ameaças de morte e de mandados de captura internacionais, Daoud confessou a dor de estar impedido de regressar à Argélia. "Estou triste pelo meu país natal. Não são os argelinos que me atacam, é o regime, são alguns intelectuais, é o islamismo. Condenam estes escritores e os assassinos andam por aí, têm dinheiro e ninguém lhes toca".
O autor alertou ainda que a liberdade de expressão enfrenta uma crise global, não se limitando aos regimes ditatoriais. Na sua perspetiva, o medo contemporâneo tem sido instrumentalizado pelo populismo à escala mundial através de uma mecânica perigosa. "Os populistas e os ditadores oferecem sempre o mesmo: 'dá-me a tua liberdade, que eu dou-te segurança'. E se o fizeres, perdes ambas. Perde-se a liberdade e a segurança. A regra básica é sempre a mesma mecânica: medo versus segurança", concluiu.