Estudo global revela que o excesso de peso e o sedentarismo estão a empurrar os mais novos para riscos cardíacos antes reservados aos adultos. Especialistas defendem que a solução passa por mudanças no estilo de vida familiar, sem pressões excessivas.
O cenário da saúde pediátrica está a sofrer uma mutação preocupante. Nas últimas duas décadas, a incidência de hipertensão arterial entre crianças e adolescentes quase duplicou em todo o mundo. Segundo um estudo recente publicado na prestigiada revista The Lancet Child and Adolescent Health, as taxas de prevalência subiram de aproximadamente 3% no ano 2000 para valores que agora rondam os 6%.
A investigação, que analisou quase uma centena de estudos em 21 países, aponta o dedo a um "cocktail" de fatores modernos: a obesidade infantil, o consumo excessivo de alimentos ultraprocessados (ricos em sódio) e o aumento drástico do tempo passado em frente a ecrãs, que substituiu a atividade física.
O Perigo da "Hipertensão Mascarada"
Um dos pontos mais alarmantes destacados pelos investigadores, como Mingyu Zhang, da Faculdade de Medicina de Harvard, é a existência da hipertensão mascarada. Muitas crianças apresentam valores normais no consultório médico, mas registam picos de tensão no seu dia a dia.
"Isto significa que muitas crianças com hipertensão real podem passar despercebidas se confiarmos apenas numa leitura ocasional durante uma consulta", alerta Zhang.
Além do estilo de vida, o estudo levanta questões sobre poluentes ambientais, como as chamadas "substâncias químicas eternas" (PFAS), que podem estar a interferir com a saúde vascular desde o período pré-natal.
Mudar o Rumo Sem Criar Traumas
Apesar dos números negros, os especialistas sublinham que este é um risco modificável. A chave não está em dietas restritivas ou na pressão psicológica sobre o peso, mas sim na reabilitação de hábitos familiares.
Peige Song, investigadora na Universidade de Zhejiang e uma das autoras do estudo, defende que a deteção precoce e o foco na nutrição podem reverter a situação antes que surjam complicações graves na idade adulta, como doenças cardíacas.
Conselhos práticos para as famílias:
Priorizar refeições em conjunto: Fomentar um ambiente positivo à mesa.
Evitar rótulos: Não classificar alimentos como "bons" ou "maus" para evitar distúrbios alimentares.
Promover o movimento: Trocar parte do tempo de ecrã por atividades físicas lúdicas.
Vigilância ativa: Não assumir que a tensão alta é "coisa de idosos".
A mensagem dos especialistas é clara: o sistema cardiovascular das crianças está a dar sinais de cansaço precoce, mas a intervenção atempada e um prato mais colorido podem mudar o desfecho desta estatística.
Fonte - CNN Portugal / Foto:DR