Lisboa, 26 set 2026 (Lusa) — O ex-ministro das Finanças Mário Centeno lançou este sábado um severo alerta sobre o estado das contas públicas portuguesas, avisando que o Estado poderá ser forçado a realizar um ajuste de 12 mil milhões de euros nos próximos dois anos caso as metas orçamentais impostas por Bruxelas não sejam revistas.
Em entrevista ao programa Conversa Capital, da Antena 1 e do Jornal de Negócios, o economista rejeitou a narrativa do Governo sobre a existência de uma "verdadeira margem orçamental" e criticou a postura do primeiro-ministro, Luís Montenegro, ao agitar o espetro de um novo resgate financeiro. "Quando o primeiro-ministro nos mete medo, o que é que ele sabe que nós não sabemos? Governar sob o medo é péssimo", sustentou Centeno, exigindo maior transparência e explicações claras aos portugueses.
O antigo governante desmistificou o excedente orçamental de 0,5% reportado no primeiro semestre, explicando que o saldo positivo resulta apenas da contabilização indevida das contas da Segurança Social. Descontado esse efeito, Centeno assegurou que o Orçamento do Estado enfrenta um "défice profundo", acusando o Executivo de ter desbaratado as almofadas financeiras acumuladas nos anos anteriores através de reduções de impostos sem acautelar as devidas reservas.
Na mesma intervenção, Mário Centeno reprovou tanto as opções do Governo — como a descida do IRS e os bónus pontuais a pensionistas — como as propostas da oposição, nomeadamente a taxa zero de IVA no cabaz alimentar ou a descida do IVA nos combustíveis defendidas pelo PS e pelo Chega. O economista manifestou ainda perplexidade perante o investimento de 400 milhões de euros na compra de capital da REN mediante endividamento num contexto de juros elevados, concluindo com um aviso taxativo: "Estamos a brincar com o fogo na questão do endividamento".