Inês Lourenço vai ser uma das personalidades homenageadas na edição deste ano da Feira do Livro do Porto. Aos 83 anos, a poeta mantém uma ligação profunda à cidade onde nasceu e que, ao longo de décadas, se tornou uma presença constante na sua vida e na sua obra.
Nascida na Rua de Camões, Inês Lourenço cresceu num Porto muito diferente do atual. As memórias da infância atravessam os anos 40, uma época marcada pelas dificuldades económicas, pelo racionamento e por uma sociedade onde as regras e os costumes condicionavam fortemente a vida quotidiana.
Foi também desde cedo que surgiu a ligação à poesia. A autora recorda uma infância em que decorar e recitar poemas fazia parte da aprendizagem, experiência que contribuiu para uma relação duradoura com a palavra escrita.
O percurso académico, contudo, só aconteceria mais tarde. Depois da morte dos pais, Inês Lourenço começou a trabalhar nos CTT e interrompeu os estudos. Anos depois, já com dois filhos, retomou a formação e licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas, na área de Estudos Portugueses e Lusófonos, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
A cidade ocupa um lugar central na sua identidade e na sua produção literária. Ruas, jardins, cafés e outros espaços portuenses fazem parte das suas memórias e ajudaram a construir uma obra profundamente ligada ao território.
Entre os locais que recorda estão a Cordoaria, o Jardim de São Lázaro e as zonas junto ao mar, mas também alguns dos cafés históricos do Porto, como o Majestic, o Piolho, o Aviz e o Guarani. Foram espaços de encontro, conversa e convivência com diferentes gerações de escritores e poetas.
Essa dimensão portuense está igualmente presente em “Dois Cimbalinos Escaldados: Vivências Portuenses”, obra dedicada às experiências e memórias associadas aos cafés da cidade.
Ao longo do seu percurso, Inês Lourenço estabeleceu relações com importantes nomes da poesia portuguesa, entre os quais Sophia de Mello Breyner Andresen e Eugénio de Andrade.
Com Sophia manteve correspondência e contacto telefónico, tendo recebido poemas inéditos para a revista de poesia Hífen, publicação que Inês Lourenço coordenou e editou entre 1987 e 1999. A admiração pela autora permanece evidente, chegando a considerar que seria ela quem merecia ter recebido o Prémio Nobel da Literatura.
A ligação a Eugénio de Andrade foi igualmente significativa. Os dois conviveram em diferentes ocasiões e o poeta convidou Inês Lourenço para integrar uma antologia dedicada ao Porto. A memória de Eugénio mantém-se presente e, quando visita o Cemitério do Prado do Repouso, onde estão sepultados os seus pais, a poeta faz questão de deixar também uma flor junto ao túmulo do escritor.
Em 2023, Inês Lourenço recebeu a Medalha de Mérito da Câmara Municipal do Porto. A distinção surpreendeu-a, sobretudo porque, como explica, nunca desenvolveu o seu trabalho com o objetivo de obter reconhecimento.
“Não faço as coisas à espera de retribuição” é uma das frases que melhor resume essa postura perante a literatura e o percurso que construiu ao longo dos anos.
Agora, a homenagem ganha um novo capítulo com a presença de Inês Lourenço na Feira do Livro do Porto. Uma tília será associada ao seu nome, uma escolha que recebeu com particular satisfação devido à ligação que mantém às árvores e às memórias da infância.
Para a poeta, o Porto não é apenas o cenário das suas obras. É parte da sua própria identidade, um lugar de pertença construído através das memórias, das pessoas e dos espaços que marcaram a sua vida.
Aos 83 anos, Inês Lourenço continua, assim, a escrever a história da sua relação com a cidade através da poesia, mantendo viva uma ligação ao Porto que atravessa gerações e permanece presente na sua obra.