Teerão, 20 de junho de 2026 (Lusa) — O Governo do Irão lançou duras críticas à França este sábado, acusando as autoridades de Paris de "hipocrisia e dupla moral". A reação surge após o chefe da diplomacia francesa ter afirmado que a população iraniana é a principal prejudicada pelo recente conflito, encontrando-se encurralada entre os bombardeamentos e a opressão interna.
Ismail Bagaei, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano, recorreu à rede social X para responder às críticas do ministro francês, Jean-Noël Barrot. Para ilustrar a sua posição, o diplomata citou uma célebre frase da obra "Tartufo", do dramaturgo francês Molière — "A hipocrisia tornou-se moda" —, argumentando que esta postura dúbia continua a caracterizar a política de França.
A discórdia estalou após Barrot declarar que o povo iraniano foi o "maior perdedor da guerra", mesmo após o memorando de entendimento assinado entre Washington e Teerão, por se ver esmagado pela atuação do próprio State e pelas ofensivas militares norte-americanas e israelitas. Em contrapartida, Bagaei censurou o governante francês por se ter mantido calado durante a guerra que Israel e os EUA moveram contra o Irão desde fevereiro. Segundo o porta-voz, o silêncio de Paris perante os ataques brutais a várias cidades iranianas transformou o país europeu num cúmplice dos agressores, acusando agora o ministro de invocar os direitos humanos por meros interesses políticos.
A tomada de posição francesa alinha-se com as preocupações de peritos da ONU, incluindo a relatora Mai Sato. Estes especialistas solicitaram que o acordo estratégico entre os EUA e o Irão — focado na retirada das tropas, na reabertura do Estreito de Ormuz e na vertente nuclear — incluísse também a defesa dos direitos civis, alegando que os cidadãos iranianos continuam a sofrer tanto com os ataques externos como com a perseguição interna.
Os peritos das Nações Unidas denunciaram que, desde o início das hostilidades no final de fevereiro, as autoridades de Teerão endureceram o combate à dissidência, resultando em milhares de detenções e em pelo menos 42 execuções sob o pretexto de segurança nacional e espionagem. Este clima de tensão segue-se aos gigantescos protestos de janeiro passado, cuja repressão violenta causou mais de 3.100 mortos segundo os dados oficiais do regime, um número que as organizações não-governamentais de oposição elevam para mais de 7.000. Até ao momento, o governo iraniano, que culpa os EUA e Israel por instigarem estes motins, já executou pelo menos 20 manifestantes.