MENU
Escassez de vitaminas C e A associada a sintomas de hiperatividade e défice de atenção
Investigação da Universidade do Porto revela que a escassez de antioxidantes e gorduras saudáveis está associada a manifestações mais severas da perturbação em crianças.
Por Redação
Publicado em 17/06/2026 09:56
Nacional
Foto:José Coelho / Lusa

Porto, 17 jun 2026 (Lusa) — Um estudo pioneiro conduzido por cientistas da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) estabeleceu uma ligação direta entre o baixo consumo de vitaminas C e A e a intensidade dos sintomas de hiperatividade e défice de atenção em crianças.

A investigação conclui que uma dieta pobre em gorduras benéficas e em nutrientes com forte ação antioxidante se reflete nos padrões de comportamento de menores diagnosticados com a Perturbação da Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA). As conclusões deste trabalho foram validadas e publicadas na prestigiada revista científica European Child & Adolescent Psychiatry.

A equipa liderada pela investigadora Joana Ferreira Gomes monitorizou 76 crianças com idades compreendidas entre os 6 e os 10 anos, todas elas já com diagnóstico clínico de PHDA. O grande propósito da pesquisa assentou na identificação de hábitos alimentares e na forma como certos nutrientes podem influenciar o dia a dia destas crianças. Para traçar este perfil, os encarregados de educação preencheram um diário alimentar detalhado ao longo de três dias, cujos dados foram processados por um software especializado em estimar a composição nutricional das refeições.

Os dados apurados demonstraram que as crianças avaliadas registavam um consumo francamente inferior de vitamina C e de gorduras saudáveis (tanto monoinsaturadas como polinsaturadas). Ao cruzar as carências nutricionais com os perfis comportamentais, os especialistas identificaram padrões claros, verificando que o consumo reduzido de vitamina A mostrou uma ligação constante a quadros mais graves de desatenção, hiperatividade, impulsividade e dificuldades de integração social. Por sua vez, os níveis mais baixos de vitamina C surgiram fortemente associados a episódios de maior hiperatividade e reações impulsivas, ao passo que a falta de selénio tendeu a relacionar-se com um aumento de comportamentos agressivos, oposição a normas estabelecidas, queixas físicas e dificuldades de raciocínio.

Estes elementos essenciais protetores do organismo encontram-se facilmente numa alimentação que seja equilibrada, estando muito presentes em frutas, legumes, sementes, ovos, frutos secos e peixes gordos. Apesar das evidências, Joana Ferreira Gomes esclarece que os resultados não provam uma relação de causa-efeito. É muito provável que as próprias dificuldades de atenção e os desafios de comportamento inerentes à PHDA acabem por moldar e condicionar as escolhas alimentares das crianças.

A investigadora da FMUP deixa ainda um alerta importante aos pais e clínicos, salvaguardando que as alterações na dieta não operam milagres isolados nem produzem melhorias imediatas nos sintomas individuais. Contudo, este estudo — que contou também com o apoio do i3S e da ULS São João — opens portas fundamentais para o desenho de estratégias alimentares direcionadas, que sirvam de complemento a um acompanhamento multidisciplinar mais robusto na infância.

Comentários