Cidade do Vaticano — O Papa Leão XIV realizou este sábado uma visita pastoral à região italiana conhecida como “Terra dos Fogos”, um território severamente fustigado pela contaminação de detritos tóxicos gerados pela atividade da máfia. Perante uma multidão de aproximadamente 15 mil fiéis reunidos na localidade de Acerra, no sul de Itália, o Sumo Pontífice defendeu a urgência de uma reestruturação profunda do modelo económico global. Segundo o líder da Igreja Católica, o atual sistema de crescimento gera exclusão social, pobreza e graves problemas de saúde pública, sendo necessária uma transformação radical de mentalidade para reabilitar o meio ambiente.
De acordo com as declarações do Papa divulgadas pela agência Lusa, o modelo tecnocrático e individualista vigente serve apenas para concentrar lucros astronómicos nas mãos de elites financeiras, perpetuando conflitos geopolíticos pelo controlo dos recursos naturais. O líder da Santa Sé, de nacionalidade norte-americana, recorreu por diversas vezes aos ensinamentos da encíclica ambiental "Laudato Si" — assinada pelo seu antecessor, o Papa Francisco —, para exortar a comunidade internacional e as instituições políticas a não cederem à resignação face aos interesses dos lóbis industriais.
A deslocação papal revestiu-se de uma elevada carga emocional, tendo começado com uma reunião privada na catedral local com cidadãos enfermos e familiares de vítimas da poluição industrial. A localidade de Acerra situa-se no centro de um perímetro que abrange cerca de 90 municípios nos arredores de Nápoles. Nessa zona, durante mais de três décadas, o crime organizado lucrou milhões de euros ao enterrar e incendiar subprodutos perigosos de forma ilegal.
Conforme reportou a agência Lusa, o bispo de Acerra, Antonio Di Donna, detalhou ao pontífice o historial deste flagelo ecológico que remonta aos anos 80. Na altura, empresários corruptos do norte de Itália contornaram as regras ambientais ao despachar toneladas de venenos fabris para o sul, assegurando poupanças operacionais e financiando a máfia. Esta negligência criminosa traduziu-se num pico alarmante de patologias oncológicas e mortes precoces na região, sobretudo entre a população jovem.
No fecho da sua intervenção, Leão XIV apelou à implementação rápida de estratégias sociais e educativas voltadas para a redução do consumismo e do desperdício. O Santo Padre sublinhou que a humanidade tem a obrigação moral de salvaguardar a natureza com o mesmo zelo com que cuida da própria habitação.
Em tom de esperança, o autarca de Acerra, Tito d’Errico, manifestou ao Papa que, apesar do estigma e do sofrimento acumulado, a comunidade local recusa render-se e ergue-se hoje como um exemplo vivo de reabilitação cívica e desejo de mudança.