O percurso e a intimidade de Álvaro Siza Vieira, o mais prestigiado arquiteto português, são o mote para o novo livro de Patrícia Reis, intitulado "A Última Lição de Álvaro Siza Vieira". A obra nasce de uma série de "conversas lentas" realizadas no Porto, onde o Prémio Pritzker se revela muito para além do traço, assumindo-se como um homem de uma cultura imensa que, aos 92 anos, ainda se define humildemente como "inculto".
Para a jornalista e escritora Patrícia Reis, o aspeto mais surpreendente desta imersão foi a dimensão literária do arquiteto. Siza Vieira é descrito como alguém que "desenha enquanto fala", utilizando maços de tabaco como suporte para as suas ideias, numa coreografia onde a palavra e o esboço se fundem. A autora destaca que, embora o mundo o reconheça pela arquitetura, reside nele uma "alma de poeta" e uma curiosidade quase infantil que o mantém ligado à criação.
A obra dedica um espaço considerável às memórias de infância, cruciais para compreender a visão de mundo do entrevistado. Siza recorda com lucidez episódios da Segunda Guerra Mundial, como o ato de colar papéis nas janelas para proteção contra bombardeamentos ou a observação de submarinos alemães. Estas vivências precoces formam o alicerce de uma carreira que se estende por décadas, abordando desde projetos na China até à nova Biblioteca da Universidade de Coimbra, com início de construção previsto para este ano.
Apesar das limitações físicas que agora o impedem de viajar, Álvaro Siza Vieira mantém uma mente vibrante e provocadora. No livro, o arquiteto discute temas inesperados, desde a sua crença em extraterrestres e a sua visão feminista, até à reflexão sobre a morte.
Patrícia Reis deixa no ar a sugestão de que esta poderá não ser, afinal, a última lição de um homem que continua a "imaginar para inventar". O livro apresenta-se como um testemunho essencial sobre o mestre de Matosinhos, que continua a observar o mundo com uma lucidez que desafia o tempo, provando que a arquitetura é, acima de tudo, uma forma de ver melhor o que nos rodeia.
Fonte:Lusa / Foto:José Coelho