Trinta anos após a classificação do Centro Histórico do Porto como Património Mundial pela UNESCO, especialistas consideram que a distinção trouxe benefícios claros à cidade, mas alertam para desafios crescentes, como o turismo excessivo e a perda de população residente.
O debate decorreu na Casa da Música, no painel “Porto, Património Mundial: O que fica, 30 anos depois?”, integrado num fórum que assinala também os 25 anos da Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura.
Rui Loza, coordenador da candidatura à UNESCO em 1996, reconheceu que o turismo é “um mal necessário” que deve ser gerido com equilíbrio, defendendo maior planeamento e uma gestão mais dedicada ao centro histórico. Alertou para um possível défice de acompanhamento, numa altura em que os esforços de reabilitação urbana se dispersam por outras zonas da cidade.
O arquiteto João Rapagão sublinhou a importância da intervenção social realizada nos anos 1990, mas lamentou a perda de população nas antigas freguesias da Sé, Miragaia, São Nicolau e Vitória. Para o especialista, o risco é transformar o centro numa “carcaça” sem vida comunitária, dominada por restaurantes e alojamento local. “O património são as pessoas”, afirmou.
Também Laura Castro, antiga diretora regional de Cultura do Norte, alertou para a necessidade de preservar a memória e o tecido social, defendendo um trabalho contínuo de sensibilização e conservação. Ainda assim, considerou que o balanço global é positivo e afastou o risco de perda do estatuto da UNESCO.
Já João Soalheiro, presidente do instituto Património Cultural, defendeu que a classificação foi uma oportunidade extraordinária, mas apelou a decisões corajosas para garantir um equilíbrio entre habitação, comércio e serviços. Questionou ainda a proliferação de hotéis e alojamentos locais no centro histórico, sugerindo uma estratégia que distribua melhor a oferta turística pela cidade.
Entre consensos e divergências, os participantes concordaram que o futuro do centro histórico exige reflexão estratégica e medidas que assegurem um equilíbrio entre valorização patrimonial, dinamismo económico e qualidade de vida dos residentes.
Fonte:Lusa / Estela Silva