A descida estatística registada em 2022 é vista pela Liga Portuguesa Contra o Cancro como uma ilusão causada pelos atrasos da pandemia. Especialistas avisam que o país enfrenta agora uma "onda" de diagnósticos tardios e mais graves.O que parecia ser uma notícia positiva — a queda no número de novos casos de cancro reportados em 2022 — é, na verdade, um "sinal de alarme" para o sistema de saúde português. Segundo a Liga Portuguesa Contra o Cancro, esta redução não reflete uma vitória sobre a doença, mas sim o impacto profundo que a pandemia de COVID-19 teve na capacidade de diagnóstico do país.
O Diagnóstico Invisível
Durante os anos críticos da pandemia, o foco do Serviço Nacional de Saúde (SNS) foi desviado para a emergência sanitária, levando à suspensão de programas de rastreio e ao adiamento de milhares de consultas e exames diagnósticos. O resultado é um hiato estatístico: os cancros não deixaram de surgir, simplesmente não foram detetados a tempo.
Vitor Rodrigues, presidente da LPCC (Liga portuguesa contra o cancro), tem reiterado que este "atraso administrativo e clínico" mascara a realidade. "Os casos que não foram diagnosticados em 2021 e 2022 estão a aparecer agora, muitas vezes em fases mais avançadas da doença", alertam os especialistas da área.
As Consequências do Atraso
A principal preocupação da comunidade médica prende-se com o estadiamento da doença. Um tumor detetado com um ou dois anos de atraso muda drasticamente o prognóstico de sobrevivência e a complexidade do tratamento:
Tratamentos mais agressivos: Casos que poderiam ser resolvidos com cirurgias simples exigem agora quimioterapia e radioterapia intensivas.
Sobrecarga do SNS: A chegada simultânea de novos casos e de casos "acumulados" está a colocar uma pressão sem precedentes nas unidades de oncologia.
O diagnóstico tardio é o fator que mais contribui para o aumento da taxa de mortalidade por cancro a curto e médio prazo.
Previsão para os Próximos Anos
A Liga prevê que os relatórios estatísticos dos próximos anos mostrem um aumento acentuado e preocupante da incidência de cancro em Portugal. Este "pico" será o reflexo da regularização dos rastreios e da procura tardia de cuidados médicos por parte de doentes que ignoraram sintomas durante o período de crise sanitária.
A recomendação das autoridades de saúde permanece clara: é urgente que a população retome os exames de rotina e que o Estado reforce os meios para recuperar as listas de espera, sob pena de enfrentarmos uma "pandemia oncológica" silenciosa.
Fonte - Agência Lusa