A Comissão Técnica Independente (CTI), constituída por 12 peritos nomeados pela Assembleia da República para analisar os incêndios de 2025, concluiu no seu relatório final de 383 páginas que o dispositivo nacional de combate a incêndios rurais falhou por razões táticas. Segundo o documento, verificou-se um "desaproveitamento das oportunidades de supressão" oferecidas pelo clima no início das ocorrências, o que permitiu que os fogos ganhassem proporções incontroláveis.
O caso do Piódão surge no relatório como o exemplo mais grave: no maior incêndio de sempre em Portugal — que consumiu 654 quilómetros quadrados em dez dias —, havia meios suficientes e janelas meteorológicas favoráveis nos primeiros dois dias, mas os recursos permaneceram maioritariamente concentrados junto a estradas e povoações, em vez de atuarem nas frentes de fogo. Da mesma forma, em Ponte da Barca, a falta de integração da informação meteorológica no combate resultou na perda de 29 horas de condições favoráveis, estimando-se que dois terços da área ardida poderiam ter sido evitados.
Além das decisões de comando, os peritos assinalam a falta de formação, a má gestão do descanso dos bombeiros e a estagnação do efetivo da Força Especial de Proteção Civil. A CTI e os dados da Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF) afastam a tese de que a meteorologia justifica a tragédia, frisando que a média de dias de alto risco até diminuiu nos últimos anos e que todos os grandes fogos tiveram momentos em que a extinção era exequível.
Perante as conclusões, o Presidente da República, António José Segura, exigiu consequências e relembrou a necessidade urgente de reformar as políticas de prevenção e resposta. Em contrapartida, o ministro da Administração Interna, Luís Neves, defendeu o dispositivo sob a sua tutela, alegando a imprevisibilidade de certos fatores atmosféricos, embora se tenha mostrado disponível para adotar medidas de exceção caso se refigure necessário.
Fonte- Lusa