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Brexit/10 anos: Reino Unido reaproxima-se da UE mas linhas vermelhas restringem margem
Uma década após o divórcio histórico, Londres tenta estreitar laços comerciais com Bruxelas, mas as promessas eleitorais do Governo travam avanços profundos perante uma economia em quebra.
Por Redação
Publicado em 21/06/2026 10:26
International
@Lusa

Londres, 21 de junho de 2026 (Lusa) — Dez anos após a consumação do 'Brexit', o Executivo trabalhista britânico mantém o foco em restabelecer pontes com a União Europeia. Contudo, o esforço para atenuar os entraves económicos sem abdicar das imposições políticas autoimpostas acaba por travar qualquer entendimento de maior envergadura.

Quando Keir Starmer assumiu o cargo de primeiro-ministro em 2024, trazia consigo a meta de otimizar os moldes da saída do bloco europeu. Ainda assim, o governante garantiu que o país não regressaria à União Europeia, ao mercado único, à união aduaneira ou ao princípio da livre circulação. A estratégia inicial revelava-se pouco definida, focando-se essencialmente na criação de um pacto veterinário para aliviar a burocracia alfandegária e o preço dos alimentos, além da validação mútua de diplomas profissionais e de facilidades para as comitivas artísticas em digressão.

Passados dois anos, as metas continuam por cumprir, registando-se apenas conversações em curso para a assinatura de um tratado fitossanitário direcionado para o comércio de produtos agroalimentares.

Para a investigadora Jannike Wachowiak, do think tank UK in a Changing Europe, a rigidez do Governo reduz drasticamente o espaço de manobra nas negociações. A analista aponta que o Executivo cometeu falhas e desgastou o seu peso político ao demonstrar lentidão e falta de clareza nas prioridades logo após assumir o poder. Wachowiak alerta ainda que, mesmo que ocorra uma mudança na liderança do Governo a curto prazo — com a eventual subida ao poder do pró-europeu Andy Burnham —, as dificuldades técnicas e a morosidade dos diálogos com Bruxelas manter-se-ão. Faltando cerca de três anos para o próximo sufrágio legislativo, a especialista considera improvável uma alteração estrutural no relacionamento que surta efeitos imediatos, lembrando que um cenário drástico, como uma readmissão, exigiria um processo muito prolongado.

O balanço económico desta década de separação aponta para cenários penalizadores. De acordo com dados avançados recentemente pelo Banco de Inglaterra e divulgados pela BBC, estima-se que a evolução da economia britânica tenha sofrido uma quebra de 6% em termos comparativos.

Esta realidade reflete-se na perceção dos cidadãos. Um estudo de opinião levado a cabo pela YouGov revelou que 57% dos britânicos encaram hoje o 'Brexit' como uma decisão errada, uma fatia que engloba quase um quarto (23%) daqueles que votaram a favor da rutura em 2016. Embora várias sondagens sinalizem uma abertura da população para o regresso ao projeto europeu, os eleitores tendem a exigir salvaguardas específicas, tais como a recuperação das antigas exceções em áreas como a justiça, a segurança ou a gestão monetária.

A perspetiva de uma nova consulta popular também mexe com o eleitorado. Um barómetro da universidade King's College London indicou que a intenção de voto no Partido Trabalhista dispararia de 31% para 45% caso a formação política incluísse a promessa de um segundo referendo nas suas propostas eleitorais.

Apesar deste indicador, Jill Rutter, antiga funcionária do Estado, aconselha prudência na leitura deste descontentamento, associando-o sobretudo à conjuntura de forte perda de poder de compra e crise económica generalizada no país. Segundo a especialista, o debate reacendeu-se porque, decorrida uma década, tornou-se evidente para a população que o afastamento da União Europeia não trouxe a prosperidade financeira que havia sido prometida.

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