O cenário internacional mudou e o Exército Português quer acompanhar essa transformação. Perante uma Rússia mais assertiva e com operações híbridas em território europeu, e perante a perceção de um menor envolvimento dos Estados Unidos na defesa do continente, os países europeus da NATO estão a reorganizar-se para um cenário até há pouco impensável: um conflito de alta intensidade em solo europeu.
Em resposta a este desafio, Portugal definiu o plano “Força Terrestre 2045”, uma reestruturação profunda que resulta dos compromissos assumidos na cimeira da NATO em Haia. O objetivo passa por criar novas unidades prontas para combate, reforçar meios e reservas de guerra, investir em defesa antiaérea e integrar sistemas de inteligência artificial.
O plano prevê a criação de uma Brigada Média, concebida como principal força de choque, combinando as capacidades das antigas brigadas de Intervenção e Mecanizada. Esta unidade deverá estar pronta até 2032 e será equipada com meios blindados modernos, incluindo os novos Boxer RCT30, com canhão de 30 mm e sistemas óticos avançados, que serão produzidos em Portugal. A par disto, o Exército pretende adquirir 36 peças de artilharia Caesar, reforçando o fogo de longo alcance e mobilidade tática, lição retirada da guerra na Ucrânia.
Paralelamente, será criada uma Brigada Ligeira até 2036, orientada para rapidez e projeção estratégica, inspirada nas tradições dos Paraquedistas e Comandos. A missão desta força será atuar primeiro em terrenos difíceis, onde os blindados pesados não conseguem chegar.
O plano atribui também nova prioridade aos Açores e Madeira, com a criação de unidades ligeiras altamente móveis, vocacionadas para negar acessos e proteger os arquipélagos. Ao mesmo tempo, serão consolidadas unidades de Operações Especiais, capazes de atuar em cenários de guerra híbrida ou atrás das linhas adversárias.
Um dos grandes investimentos incide na defesa antiaérea, considerada uma lacuna crítica. Para proteção das forças no terreno serão introduzidos sistemas Rapidranger com mísseis Starstreak, enquanto a aquisição do IRIS‑T permitirá criar zonas de proteção de médio alcance em território continental e insular.
Outro pilar central é a constituição de reservas de guerra, abandonando a lógica de stocks mínimos e passando ao armazenamento de munições, peças e consumíveis para sustentar combates prolongados. Está prevista ainda a criação de um comando logístico projetável, capaz de acompanhar as forças no exterior.
O Exército quer também colocar robótica e inteligência artificial na linha da frente. Alguns blindados M113 estão a ser convertidos em plataformas não tripuladas para transporte de material e evacuação de feridos. A recém‑criada Zona Livre Tecnológica Infante D. Henrique, com áreas de testes em São Jacinto, Santa Margarida e Beja, permitirá desenvolver e experimentar estes sistemas com universidades e indústria nacional.
Com o “Força Terrestre 2045”, o Exército Português assume que o paradigma mudou: mais do que missões de paz, é preciso preparar o país para responder a um cenário real de guerra de alta intensidade na Europa.
FontecnnportugalfotoFabian Sommer / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0